Fogo no palheiro: atrás de mais consumidores, indústria investe em cigarro de palha

cigarro de palha

Se você tem mais de 40 anos, é possível que lembre de ter visto um camelo de óculos escuros em cima de uma motocicleta fumando. Era época em que a propaganda desses produtos era permitida no Brasil. Os Camel e Winston, comercializados pela Japan Tobacco International (JTI), garantem à empresa 16% da fatia de mercado global de produtos de tabaco comburentes. No Brasil, a companhia tem 1% do mercado. 

De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, 20,5 milhões de pessoas com mais de 15 anos de idade fumam no país. A companhia sabe disso e tem investido bastante para ampliar sua fatia e conquistar não apenas a simpatia, mas certamente, novos e jovens clientes. 

Neste ano, por exemplo, foi lançado um novo produto no Brasil, com “foco no público jovem e urbano, com bom poder aquisitivo”: o cigarro de palha. A empresa surfou na onda de um produto que voltou a circular com ares naturalista e mais artesanal, até certo ponto romantizado, associado à vida simples do campo. Faltou alertar a esses consumidores que – embalado com palha seca ou papel industrializado – o conteúdo principal continua sendo o tabaco. Por isso, o cigarro de palha expõe o fumante aos mesmos riscos: dependência bioquímica e psicológica, doenças pulmonares e bucais e aumento da pressão arterial.

Lamentavelmente, as pesquisas já deram sinal de fumaça. Mesmo que a proporção de fumantes tenha reduzido de 14,7% para 12,6% entre 2013 e 2019 (PNS), entre os fumantes de cigarro de palha de 18 a 24 anos de idade, a pesquisa mostra um aumento estatisticamente significativo, tanto na área urbana quanto rural. 

A companhia atua de acordo com a cartilha das empresas do tabaco: desenvolve ações de responsabilidade social como estratégia de conquistar mercado e ficar bem ranqueada no mercado internacional; Implementa programas corporativos vislumbrando certificados e reconhecimento de boas práticas ambientais e trabalhistas;  e se envolve com projetos  sociais com adolescentes e público adulto-jovem. Essas práticas corporativas, porém, não podem afastar o fato de que é fabricado um produto que mata metade de seus consumidores.

Em 2020, a JTI colocou para funcionar a fábrica que estava pronta desde 2018 em Santa Cruz do Sul, a 155 km da capital gaúcha. A meta da empresa para este ano de 2021 é produzir 4 bilhões de cigarros ao ano. Mais pulmões brasileiros enfumaçados.

E não é só isso. A empresa lançou recentemente uma campanha institucional sobre “liberdade de escolha”. Você talvez também deva lembrar do slogan de uma outra marca de cigarros. Mais uma tentativa de vender a ideia de algo muito diferente de seus negócios. O fato é que, ao final, eles continuam vendendo nicotina, substância responsável pela dependência química e diversos prejuízos à saúde dos usuários. 

O mote desta campanha é liberdade de trabalhar quando e onde quiser. Permissão que a empresa concede para os funcionários, mas para os 11 mil agricultores do setor, a regra é outra: tem hora de plantar, de colher e de passar noites inteiras controlando temperatura de fornos para secagem das folhas, em virtude do sistema integrado, onde as empresas controlam a qualidade, volume, variedade e custos na produção do tabaco pelo agricultor. Esse lado não aparece nas redes sociais.

O controle do tabaco no Brasil é reconhecidamente bem sucedido – o país foi pioneiro em diversas medidas. Mas ainda há muito o que ser enfrentado, não estamos no final do jogo. Medidas educativas e legislativas precisam ser intensificadas para garantir proteção à saúde, especialmente dos jovens. E a reformulação do sistema de impostos dos produtos de tabaco deve ser compreendido como o melhor caminho para isso. O custo do tabagismo para sociedade brasileira é gigantesco: mais de R$ 92 bilhões de reais ao sistema de saúde. Por outro lado, apenas R$ 12 bilhões retornam aos cofres públicos por meio da arrecadação  com impostos advindos do cigarro. É uma conta que não fecha.

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