Setembro amarelo: o suicídio e a produção de tabaco

10 de setembro é o dia mundial de prevenção ao suicídio e, durante todo o mês, entidades vêm debatendo o tema, entendendo que as conversas sobre essa questão tão difícil contribuem para sua prevenção. Um dia apenas para isso não seria suficiente e, por essa razão, designou-se o mês inteiro para chamar a atenção para a causa: esse é o Setembro Amarelo.

Assim, no último dia 22, o Centro de Estudos sobre Tabaco e Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública (Cetab-Ensp) da Fiocruz realizou uma web-conferência intitulada “Suicídio e Trabalho: como romper com o silêncio entre as populações do campo”.

Para muitos, a fumicultura ainda é um assunto incomum quando pensamos em controle do tabaco no Brasil, mesmo que sejamos o principal exportador de fumo e segundo maior produtor mundial. A fumicultura no Brasil tem uma especificidade, que a difere de outras cadeias produtivas: o cultivo de tabaco é feito por agricultores familiares e não por grandes empresas. Esses colonos têm suas vidas, saúde e segurança nas mãos das empresas fumageiras.

O Prof. Alvaro Merlo, professor titular da UFRGS, apresentou o trabalho nas lavouras como um potencial desencadeador de sofrimento psíquico, que por sua vez pode levar ao suicídio. Destacou junto aos demais especialistas, no entanto, que ideias suicidas e o suicídio são multifatoriais, ou seja, não é possível isolar um fator único que leva um indivíduo a atentar contra sua própria vida. E dados alarmantes apontam que cerca de 70% dos suicídios relacionados ao trabalho não são identificados, dificultando e silenciando a discussão tão necessária acerca dessa questão, ainda mais quando se trata da população do campo.

Pesquisas apontam que os riscos de suicídio são mais elevados entre os trabalhadores rurais quando comparados aos urbanos. Além disso, a associação com agrotóxico é significativa. O uso dessas substâncias é parte da cadeia causal, pois a exposição aos agrotóxicos, além de levar a intoxicações, tem relação com alterações neuropsiquiátricas, incluindo transtorno mentais e depressão, que compõem a lista de fatores associados ao suicídio.

É muito frequente o uso de agrotóxicos no cultivo de tabaco, e por esse motivo, os membros das mais de 150 mil famílias produtoras brasileiras estão expostos aos riscos – incluindo crianças e jovens que ajudam seus pais na lavoura. Suas vidas e de suas famílias estão a cada dia sendo prejudicadas pela cultura de um produto que vira cinzas e mata metade de seus consumidores. O livro “Vidas Tragadas” retrata a dura realidade dessa gente.

E não é apenas isso: a doença da folha verde do tabaco é um quadro de intoxicação aguda, que acomete agricultores na época da colheita, em virtude da absorção pela pele da nicotina presente na folha de tabaco. Ela também está associada ao desenvolvimento de distúrbios mentais.

A Prof. Neice Faria, professora e pesquisadora em temas relacionados à saúde do trabalhador, destacou que essa doença, quando associada à exposição de agrotóxico, aumenta o risco de ideias suicidas entre os agricultores que plantam fumo.

Um triste cenário agravado pelo fato de que os equipamentos de proteção individuais disponíveis, que poderiam reduzir a exposição aos agrotóxicos e o contato com a folha de tabaco, são muitas vezes inviáveis, por conta do desconforto físico que geram quando são utilizados, já que eles esquentam muito e a colheita do fumo acontece no verão, onde as temperaturas são muito elevadas. Além disso, o custo desse equipamento fica por conta do agricultor e, em meio às dificuldades financeiras, pode não estar entre as prioridades da família.

As questões financeiras exercem um papel relevante no adoecimento dos colonos. Os fumicultores estão inseridos no sistema integrado do tabaco, esquema que privilegia as indústrias beneficiadoras e importadoras de tabaco. Sob a força do contrato estabelecido, os agricultores recebem assistência técnica, meio pelo qual estabelecem quais sementes devem ser usadas, quais insumos são necessários, em que quantidade e qualidade e o volume de fumo que deve ser entregue ao final da colheita.

O sistema integrado certamente favorece as fumageiras e contribui para o endividamento do agricultor, estabelecendo um ciclo de dependência econômica. Conforme apontado pelos especialistas, os problemas com dívidas também têm forte associação com ideias suicidas entre os fumicultores, assim como ser do sexo feminino, ter mais de 47 anos de idade, trabalhar em posições forçadas e apresentar lombalgia crônica.

Em 2018, a ACT coordenou uma série de entrevistas para programas de rádio No Mundo do Tabaco mostrando os diversos aspectos envolvidos na produção do fumo.  No Programa nº 16, a médica Adriana Skamvestsakis, do Centro Regional de Referência em Saúde do Trabalhador, comenta os casos de depressão e suicídios em regiões fumageiras.

Temos acompanhado nas três últimas décadas os avanços do controle do tabaco no Brasil. No entanto, ainda há desafios para serem vencidos. Os governos locais, estaduais e federal precisam de um plano de ação urgente para salvaguardar essas famílias. A demanda por tabaco já está reduzindo e seus efeitos estão sendo percebidos na ponta da cadeia produtiva. Agricultores estão sendo descartados, a produção está se concentrando em algumas propriedades e pessoas estão ficando sem perspectiva de vida.  As famílias precisam de apoio para diversificar sua renda e produção, com segurança para sua saúde e meio ambiente.

 

Deixe uma resposta