A fome: ontem, hoje, sempre

fome: mulher lamenta sentada no chão

Temos tido cada dia mais informações sobre aumentos de preços de alimentos, a vulnerabilidade social, a pobreza e a fome que vem atingindo o país. Recentemente, um texto da PerifaConnection, assinado pela estudante de nutrição da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Geovana Dias, e publicado na Folha de S. Paulo, menciona não só o crescimento da obesidade entre os brasileiros, mas também o da ansiedade de quem não tem o que comer.

Ao compartilhar o texto com a Rede ACT, recebi um email de Dandara Baçã de Jesus Lima, da Secretaria de Atenção Especializada em Saúde, me lembrando que a escritora Carolina Maria de Jesus, agora Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, já mostrava essa situação em seu livro Quarto de Despejo: Diário de uma favelada, publicado em 1960, pela Francisco Alves, e com nova edição especial, da Ática.

A Doutora Carolina foi uma das primeiras escritoras negras e reconhecida entre as maiores. Ela nasceu em Sacramento, Minas Gerais, em 1914, viveu a maior parte da vida em São Paulo, na favela do Canindé, em Santana e em Parelheiros, e tinha diversos trabalhos informais. Em cadernos que encontrava no lixo, reaproveitava ou comprava com enorme dificuldade, deixou uma extensa produção literária. Ela alcançou o sucesso justamente com Quarto de Despejo, organizado pelo jornalista Audálio Dantas e publicado em 14 idiomas, mas muitos de seus escritos permanecem inéditos ou fora de circulação há décadas.

Veja aqui alguns trechos de Quarto de Despejo, selecionados pela Dandara, escritos na década de 50 do século passado, mas que infelizmente poderiam ter sido escritos agora há pouco, em qualquer lugar deste país. Deixamos a grafia como no original, assim como o nome do presidente da época e a moeda. Se você quer sugerir outros trechos, ou outros livros, mande um email para nós ou deixe seu comentário abaixo.

15 de julho de 1955 aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos generos alimenticios nos impede a realização dos nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar”. (pág. 11)

“...Eu não ia comer porque o pão era pouco. Será que é só eu que levo esta vida? O que posso esperar do futuro? Um leio em Campos do Jordão. Eu quando estou com fome quero matar o Janio, quero enforcar o Adhemar e queimar o Juscelino. As dificuldades corta o afeto do povo pelos políticos”. (pág. 33)

21 de maio. Passei uma noite horrível. Sonhei que eu residia numa casa residivel, tinha banheiro, cozinha, copa e até quarto de criada. Eu ia festejar o aniversario de minha filha Vera Eunice. Eu ia comprar-lhe umas panelinhas que há muito ela vive pedindo. Porque eu estava em condições de comprar. Sentei na mesa para comer. A toalha era alva ao lirio. Eu comia bife, pão com manteiga, batata frita e salada. Quando fui pegar outro bife despertei. Que realidade amarga! Eu não residia na cidade. Estava na favela. Na lama, as margens do Tietê. E com 9 cruzeiros apenas. Não tenho açucar porque ontem eu saí e os meninos comeram o pouco que eu tinha”. (pág. 39)

Eu ontem comi aquele macarrão do lixo com receio de morrer, porque em 1953 eu vendia ferro lá no Zinho. Havia um pretinho bonitinho. Ele ia vender ferro lá no Zinho. Ele era jovem e dizia que quem deve catar papel são os velhos. Um dia eu ia vender ferro quando parei na Avenida Bom Jardim. No lixão, como é denominado o local. Os lixeiros haviam jogado carne no lixo. E ele escolhia uns pedaços: Disse-me: – Leva, Carolina. Dá para comer. Deu-me uns pedaços. Para não maguá-lo aceitei. Procurei convencê-lo a não comer aquela carne. Para comer os pães duros ruidos pelos ratos. Ele disse-me que não. Que á dois dias nao comia. Acendeu o fogo e assou a carne. Esquentou-a e comeu. Para não presenciar aquele quadro, saí pensando: faz de conta que eu não presenciei essa cena. Isto não pode ser real num paiz fertil igual ao meu. Revoltei contra o tal Serviço Social que diz ter sido criado para reajustar os desajustados, mas não toma conhecimento da existência infausta dos marginais. Vendi os ferros no Zinho e voltei para o quintal de São Paulo, a favela. No outro dia encontraram o pretinho morto. Os dedos do seu pé abriram. O espaço era de vinte centimetros. Ele aumentou-se como se fosse de borracha. Os dedos do pé parecia leque. Não trazia documentos. Foi sepultado como um Zé qualquer. Ninguem procurou saber seu nome. Marginal não tem nome”. (pág. 40)

Antigamente era a macarronada o prato mais caro. Agora é o arroz e feijão que suplanta a macarronada. São os novos ricos. Passou para o lado dos fidalgos. Até vocês, feijão e arroz,nos abandona! Vocês que eram amigos dos marginais, dos favelados, dos indigentes. Vejam só. Até o feijão nos esqueceu. Não está ao alcance dos infelizes que estão no quarto de despejo. Quem não nos despresou foi o fubá. Mas as crianças não gostam de fubá”. (pág. 43)

…Quando eu estou com pouco dinheiro procuro não pensar nos filhos que vão pedir pão, pão, café. Desvio meu pensamento para o céu. Penso: será que lá em cima tem habitantes? Será que eles são melhores do que nós? Será que o predominio de lá suplanta o nosso? Será que as nações de lá é variada igual aqui na terra? Ou é uma nação unica? Será que lá existe favela? E se lá existe favela será que quando eu morrer eu vou morar na favela?” (pág. 50)

A lentilha está a 100 cruzeiros o quilo. Um fato que alegrou-me imensamente. Eu dancei, cantei e pulei. E agradeci o rei dos juizes que é Deus. Foi em janeiro quando as aguas invandiu os armazens e estragou os alimentos. Bem feito. Em vez de vender barato, guarda esperando alta de preços: Vi os homens jogar sacos de arroz dentro do rio. Bacalhau, queijo, doces. Fiquei com inveja dos peixes que não trabalham e passam bem”. (pág. 60)

24 de julho. Como é horrível levantar de manhã e não ter nada para comer. Pensei até em suicidar. Eu sucidando-me é por deficiencia de alimentação no estomago. E por infelicidade eu amanheci com fome”. (pág. 99)

Texto de Anna Monteiro e Dandara Baçã de Jesus Lima

 

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