Dicas de uma ex-fumante para parar de fumar

Depoimento de Ticiana Imbroisi

Hoje  completam-se 56 dias que parei de fumar. Estabeleci um marco a ser ultrapassado, o dos 21 dias, tempo necessário para algo se transformar em hábito. 

O dia mais difícil foi o primeiro. Senti falta várias vezes daquele que foi meu “companheiro” nos últimos anos. Adquiri o “novo” hábito, que é um vício e não hábito, após o término do meu casamento, em 2013. Nos últimos dois anos, especialmente, com o adoecimento quase simultâneo dos meus pais, resultando na morte do dois, o consumo aumentou bastante. O cigarro tornou-se a válvula de escape para conseguir lidar com as emoções pesadas e situações de perda que estiveram presentes nos últimos tempos. O aumento dos níveis de dopamina no cérebro, provocado pela nicotina, realmente nos engana relaxando, acalmando, confortando, fornecendo um falso prazer. 

Rapidamente o cigarro começou a ocupar mais espaço em minha vida e a estar presente também em situações prazerosas, como rodas de conversas com amigos, botecos para extravasar após um dia puxado de trabalho ou fins de semana. Para mim sempre houve algo conectado à sensação de liberdade da adolescência.

O meu primeiro contato com cigarro foi dentro de casa mesmo. Meu pai me dava dinheiro para ir à padaria comprar para ele.  Mas comecei a fumar por volta dos 15 anos. Com meu primeiro talão de cheques, presente de aniversário de 15 anos, junto com uma conta bancária na qual doravante seria feito o depósito da mesada, fui à galeria do Hotel Nacional de Brasília para comprar cigarros importados Ives Saint Lourent, que era o próprio símbolo do glamour com sua embalagem vinho e dourada. Aos 16, já na Universidade de Brasília, eu já fumava como fumavam os universitários da época e os professores: dentro da sala de aula. 

Assim continuei até os 20 anos, quando supus que estivesse grávida.  Antes mesmo de pegar o resultado positivo do exame, joguei a carteira de Carlton fora e nunca mais voltei a colocar um cigarro na boca. Até que… veio a separação aos 39. Com ela, a necessidade de refazer a rede de amigos, de socializar, de curtir e ser livre.  Sensações que meu inconsciente relacionava a um momento da vida em que eu fumava. Assim, fui voltando aos poucos, como uma brincadeira de amigas que agora haviam descoberto um tabaquinho orgânico, que afinal, “nem fazia tão mal”, pois não tinha aditivos químicos. Bom argumento, parecia. Em pouco tempo eu já havia adquirido o kit completo para enrolar os cigarros e andava com ele pra cima e pra baixo e quando percebi estava completamente viciada novamente após quase 20 anos sem colocar um cigarro sequer na boca.

Há fatos que precisam ser ditos: 

  1. Não existe cigarro que não faz mal. 
  2. Nicotina é uma droga legalizada e das que criam a pior dependência – o que faz de um ex-fumante um potencial viciado.  
  3. Ok, poucos poderiam dizer que fumam só de vez em quando, esporadicamente. Certamente tratam-se de pessoas que não adquiriram dependência antes do fim da adolescência, quando o cérebro ainda não estava completamente formado. Por isto mesmo o tabagismo é considerado uma doença pediátrica.

O que me fez para de fumar? Primeiramente, sempre me senti ridícula tendo voltado a fumar após tanto tempo. Fumei escondido dos meus pais e dos meus filhos, porque achava um péssimo exemplo. Depois, por um acaso do destino, vim a trabalhar com agricultores familiares plantadores de tabaco, a conhecer as péssimas condições de saúde e a crueldade da dependência econômica da indústria a qual estão submetidos. Ainda assim não consegui deixar de fumar. Comecei, logo depois, a trabalhar numa organização que atua na promoção da saúde e nas políticas públicas de controle do tabaco. Igualmente não foi possível parar de fumar. 

Veio a pandemia da Covid-19, causada pelo novo coronavírus. Trancafiada em casa com três filhos pequenos, a dependência me levou a fumar na frente deles, obviamente. A consciência doía mais ainda. Entretanto, parar de fumar durante o confinamento social parecia a mais severa das punições. Como alguém poderia conseguir? Cheguei a fumar dez cigarros ao dia.

Até que, depois de meses dentro de casa, sedentária, nervos à flor da pele, como estamos todos, resolvi sair para caminhar. No meio do passeio senti vontade de sair correndo. Corri por cinco quilômetros sem parar. Senti imensa falta de ar, ainda por cima usando máscara, exemplo que não aconselho quem quer parar de fumar a fazer. Porém, ao chegar em casa exausta e com um tremendo bem estar, entendi que se a Covid-19 me pegasse eu certamente precisaria de um respirador. Daí para concluir que eu ainda não posso morrer, foi óbvio: meus filhos pequenos dependem de mim ainda.  

Veio então o estalo que mudou tudo: eu escolhi parar de fumar. O ponto da virada que convenceu o meu racional foi exatamente este: o meu poder de escolha. Pode parecer uma coisa idiota, mas o fato de entender que eu estava no comando me possibilitou enviar uma informação diferente ao meu cérebro. E disse a mim mesma: “eu escolho não fumar mais”! Isso era muito diferente de escutar: “você tem que parar de fumar”! Tenho coisa nenhuma, afinal quem manda na minha vida sou eu. Por mais que eu soubesse que fazia mal, EU decidiria sobre minha vida e os outros não teriam nada a ver com isso.  Veio assim o clique que me faltava. 

Não quero defender, com isso, que fumar é escolha individual, desculpa sempre alegada pela indústria do tabaco e que despreza o potencial de dependência da nicotina, que faz com que simplesmente essa escolha não se torne possível. Por isso, são fundamentais nesse processo que leva a pessoa a parar de fumar um ambiente propício, que possa favorecer uma escolha mais saudável, com as leis antifumo que proíbem o fumo em ambientes fechados e uma série de regulamentações que vieram nas últimas décadas: proibição da publicidade de cigarros nos meios de comunicação e nos pontos de venda (ainda muito desrespeitada), preços mais altos de cigarros, consequência da política de preços e impostos, imagens de advertências sanitárias fortes e o Disque Pare de Fumar, que orienta o fumante, entre outras.  

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Entre as dicas que eu posso dar para quem está no processo de parar de fumar, é acreditar que é possível:  

  • Comece uma atividade física mesmo antes de parar de fumar. 
  • Aproveite o momento da pandemia para parar, pois fumantes têm muito mais riscos de agravamento por Covid-19. 
  • Jogue todo o cigarro que tiver em casa fora, para evitar ter ao alcance: em geral a vontade passa nos primeiros 10 minutos. 
  • Aguente, resista um pouco. Lembre-se sempre que parar de fumar é uma decisão sem volta. Uma vez viciado, sempre viciado. Nunca mais poderá colocar um cigarro na boca novamente. 
  • Após uma semana você vai se sentir magnificamente saudável! É incrível como nosso pulmão e células se regeneram rápido! 
  • Faça refeições mais saudáveis e note como seu organismo vai se purificando como um todo. 
  • Ah, faça meditação! Estou fazendo todos os dias. Até encontrei uma online específica para parar de fumar que funciona como hipnose (pode ouvir dormindo). 
  • E, mais que tudo, repita o mantra diário: eu até posso fumar, mas eu decidi parar de fumar. 
  • Se não conseguir só, procure ajuda, nesses tempos de pandemia, procure por ajuda online, grupos de amigos que podem incentivar e até mesmo o Disque Parar de Fumar, que está funcionando.

2 comentários em “Dicas de uma ex-fumante para parar de fumar”

  1. eu luto contra a ansiedade e a insonia por anos e anos e devido a ela infelizmente eu procurei fumar para tentar fugir dela e só piorei a situação hoje sofro pelos anos que fumei pois os sintomas de abstinência depois que você parar de fumar são terríveis no inicio mas acredito que um dia viverei livre disso

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