Direito à água e a sede das indústrias

direito à água: garrafas pet se acumulam em praia

Água. Um bem comum que fala muito sobre necessidade, sobrevivência, humanidades e – por que não? – afeto, cuidado e empatia. Misturada com sabão, afasta o COVID-19. Serve higienizar alimentos, fazer comida, tomar banho de mangueira ou cachoeira. Mata a sede e equilibra a temperatura do corpo, que tem cerca de 60% de água na sua composição. É necessária para as funções mais básicas de nossas células, para chorar e até para ficar com água na boca. E justamente por tudo isso ter acesso à água de forma suficiente, segura e acessível é um direito fundamental já reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU). 

Apesar de extremamente valorosa, a água tem sido encarada como um recurso inesgotável, que pode ser comprado, vendido, embalado e desperdiçado. Mas ela falta. Apesar da maior parte dos domicílios já possuir rede geral como principal forma de abastecimento hídrico, cerca de 18,4 milhões de brasileiros não contam com seu fornecimento diário.

E se a água não está no topo das discussões da sociedade brasileira, está sim na mira das indústrias. Empresas que fabricam bebidas não-alcoólicas e alcoólicas buscam garantir possibilidades de reserva para manter sua produção e faturamento. 

Enquanto se apresentam como os grandes guardiões da responsabilidade socioambiental, uma grande teia de negócios e relações é articulada entre grandes corporações destes setores com políticos e setores do governo, sobretudo para fomentar a privatização da água, trazida em detalhes na reportagem do site de jornalismo investigativo O Joio e O Trigo. Mas, por que há tanto interesse? Segundo a reportagem, a água é a matéria-prima mais cara para a produção de bebidas, e é cada vez mais escassa. Ou seja, empresas que fabricam bebidas não alcoólicas e alcoólicas buscam garantir possibilidades de reserva para manter sua produção e faturamento.Os próprios relatórios de sustentabilidade das empresas revelam: para cada litro de bebida produzida, a Ambev usa 2,94 litros de água, enquanto a Coca-Cola usa 1,67 litros. A reportagem revela uma das estratégias das indústrias para garantir matéria-prima: participação das empresas nas mesas de discussão das políticas públicas, como no 8o Fórum Mundial da Água de 2018 que teve, entre outros patrocinadores e debatedores, a Coca-Cola, a Ambev e a Nestlé, grandes produtoras de bebidas e água mineral.

 

Captação de água para produção e poluição de garrafas PET

É impossível separar o debate sobre a produção de alimentos e bebidas e o desenvolvimento sustentável do planeta. E outro ingrediente para se compreender o impacto da indústria de bebidas no acesso à água é o plástico. Pelo menos 1,5 milhão de toneladas de plástico são usadas na produção de garrafas PET, e a indústria de bebidas é  o quinto setor que mais consome produtos plásticos, perdendo apenas para setores como artigos de comércio em atacado e varejo, automóveis, autopeças e alimentos. A Associação Internacional de Águas Engarrafadas indica que a busca por plásticos para produção de mais garrafas PET cresce 7% ao ano no país. Uma alimentação com menos refrigerantes e bebidas açucaradas reduziria a produção e descarte de plástico e preservaria a água do planeta.

A apropriação da água para produção de bens que fazem mal à saúde e ao meio ambiente não é exclusividade do Brasil, infelizmente. No México, enquanto cerca de 25% da população não tem acesso diário à água, 133 bilhões de litros de água são anualmente extraídos para a produção de bebidas e alimentos ultraprocessados, via concessões públicas, que dão acesso indiscriminado a fontes de água com subsídios fiscais. Em uma área de reserva indígena mexicana, como consequência do uso excessivo de seus poços pela Coca-Cola, mais pessoas são obrigadas a comprar ou buscar água a longas distâncias e diminuir a produção de itens da alimentação tradicional, como milho e feijão.

Nesta semana do dia mundial da água, comemorado em 22 de março, é preciso pensar no nosso futuro. Resta saber se queremos acesso à água garantido para todos e todas de forma a preservar nossos rios e mananciais. Ou se aceitaremos ser engolidos por um mar de garrafas PET – que consumimos nos anos 90 – enquanto corporações sugam a nossa água e nosso dinheiro para produzir bebidas que não matam a sede. A preservação do meio ambiente e da vida humana dependem de que a água seja garantida como um bem comum e não um bem comprável, engarrafado e descartável, para poucos que podem pagar e destruir. 

 

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