Novos dispositivos eletrônicos para fumar

Texto por Anna Monteiro, Diretora de Comunicação da ACT

No Brasil, as doenças tabaco-relacionadas custam, segundo estudo desenvolvido pelo Instituto Nacional de Câncer, R$ 56.9 bilhões por ano, considerando despesas médicas e perda de produtividade por doenças relacionadas com o tabagismo. Ao mesmo tempo, os impostos recolhidos pela Receita Federal com cigarros são de R$ 12.9 bilhões, o que cria um déficit  de mais de R$ 40 bilhões. O mesmo estudo mostra que são 156 mil mortes anuais causadas pelo tabaco no país.

Os custos de doenças e mortes são altos o suficientes para que o país mantenha a política de controle do tabagismo, bem sucedida, e a amplie com medidas ainda não adotadas. Entre as medidas comprovadamente eficazes, estão a política de preços e impostos para cigarros, a proibição do fumo em ambientes fechados e dos aditivos de sabores, que ainda não entrou em vigor, e a restrição de publicidade.

Um assunto à parte são os novos dispositivos para fumar. As principais empresas de cigarros, de atuação global, como Altria, dona da Philip Morris, e British American Tobacco, da Souza Cruz, entre outras,  tentam liberar o uso de novos produtos, os chamados cigarros eletrônicos e produtos de tabaco aquecido. Popularmente, muitos são conhecidos como vapers ou vaporizadores. Eles não funcionam com combustão, como os cigarros convencionais, e por isso seus fabricantes alegam que seriam menos nocivos e não teriam substâncias cancerígenas. Entretanto, não há evidências científicas suficientes para afirmar isso. E mais: vários contêm nicotina, a substância que causa a dependência química do tabagismo.

Esses tipos de dispositivos foram lançado há cerca de 10 anos com o pretexto de ajudar fumantes a se livrarem da dependência da nicotina, mas seu efeito é outro: eles vêm atraindo adolescentes. Seu formato é tecnológico, podendo receber carga em USB de computadores,  lembrando os pen drives e outros gadgets.  Eles também usam aditivos com sabores de menta, cravo, canela,  chocolate, morango, creme brulê e baunilha, entre outros, o que também é um chamativo para jovens.  

A falta de mais estudos independentes sobre a toxicidade e os males causados  é um fator que leva a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que regulamenta produtos de tabaco no Brasil, a proibir sua comercialização.  Os países que os liberaram vêm o tabagismo crescer entre o público jovem, foco primordial da indústria do tabaco.

O discurso de redução de danos é usado pelas empresas para alcançar a liberação da venda dos dispositivos, mas não há dúvida de que a estratégia é para ampliar o mercado, que representa bilhões de dólares em novos fumantes e fumantes que não conseguem parar. Um exemplo foi o movimento recente da Altria, que investiu US$ 12,8 bilhões na compra de 35% da Juul Labs, uma das líderes do setor.

A indústria do tabaco mentiu durante décadas sobre os riscos de fumar, mantém um forte lobby em todos os países onde atua, financiou estudos enganosos e  usou estratégias pesadas de marketing com um só objetivo: vender cigarros. Os “light”, por exemplo, foram anunciados como menos prejudiciais até essa alegação ser derrubada por pesquisas efetivamente independentes.  

Por que acreditar em suas boas intenções agora? A comunidade científica e organizações  precisam observar os movimentos da indústria do tabaco para evitar interferências nas políticas públicas de saúde, ter uma forte base de evidências científicas que garantam a segurança e eficiência desses dispositivos e, especialmente, ampliar as medidas de controle do tabagismo.

Ainda temos mais de 10% da população fumante, representando o oitavo país com maior número absoluto de fumantes, cerca de 11 milhões de homens e sete milhões de mulheres, segundo a Organização Mundial da Saúde.

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