Desafios e possibilidades para Alimentação Adequada e Saudável num Planeta em Crise

(Originalmente publicado na revista Cadernos OBHA – volume 1, julho de 2020)

O momento é de tudo ao mesmo tempo agora. A pandemia da COVID-19 parou o mundo da  noite para o dia, o que seria impensável em tempos “normais” – voltaremos a essa suposta normalidade mais adiante – tornou-se inevitável. Aviões pararam de voar, quem pode passou a trabalhar de casa, o preço do barril de petróleo despencou, muitos carros deixaram de circular, o ar ficou mais limpo, animais silvestres passaram a circular em grandes metrópoles, todas as conversas passaram a girar em torno de algo invisível e assustador que ainda não sabemos aonde nos levará. Sabemos apenas que estamos no meio de um momento histórico. E que tenhamos a sabedoria de superar esse momento de forma a poder contar uma história de transformação no futuro. 

No campo da segurança alimentar e nutricional algumas coisas são imediatas, urgentes e para ontem. Um tema que sempre foi periférico para os veículos da grande mídia, ganha a manchete de capa de domingo num dos principais jornais do país: “Brasil tem 7 milhões de alunos sem merenda e ajuda para comer”, seguida de reportagens de duas páginas inteiras. Nestas, exemplos bons de adaptação e distribuição de alimentos de qualidade garantindo a compra de produtos da agricultura familiar, a renda da pequena propriedade rural e comida de verdade para crianças da rede pública de ensino no Paraná, assim como exemplos péssimos de crianças e famílias totalmente desassistidas em grandes capitais como Rio de Janeiro e São Paulo. O tema da alimentação escolar e a ameaça do retorno do Brasil ao mapa da fome é urgente e imediato e sabemos que as soluções existem. 

Desafios

As mazelas da desigualdade social no Brasil, invisíveis ou naturalizadas no cotidiano de boa parte da população mais abastada, tornaram-se fraturas expostas no cenário atual. As medidas de austeridade econômica adotadas nos últimos anos exacerbaram as desigualdades sociais e tiraram recursos de áreas fundamentais para o bom funcionamento do país como saúde e educação. 

Pincelando por assuntos aparentemente desconexos é possível refletir sobre as escolhas que temos privilegiado enquanto país e que tornam os efeitos da crise da Covid-19 ainda mais graves. 

O SUS, Sistema Único de Saúde, em processo de desmonte nos últimos anos, perdeu 20 bilhões somente em 2019 segundo levantamento do CNS – Conselho Nacional de Saúde, em consequência da Emenda Constitucional 95 de 2016. 

Enquanto isso os incentivos fiscais dados as empresas de refrigerantes sediadas da Zona Franca de Manaus seguem em cifras que vão de 2 a 4 bilhões anuais numa guerra de decretos que, apesar de algum avanço entre muitas idas e vindas desde 2016, tem mantido benefícios tributários absolutamente inaceitáveis para a saúde da população e da economia do país. 

Além de deixarmos de arrecadar bilhões em tributos, subsidiamos a produção de bebidas que fazem mal a saúde num país onde mais da metade da população está com sobrepeso e 20% é obesa. Evidências científicas demonstram que o consumo de bebidas adoçadas são fator de risco para doenças como obesidade, diabetes tipo 2 entre outras doenças crônicas associadas a piora de quadro e morte em pessoas que contraem o vírus da Covid-19. 

Esses são exemplos de escolhas que privilegiam sistemas insustentáveis e injustos. 

Solidariedade

Mas, em paralelo a más escolhas, existem centenas de iniciativas que são exemplos de solidariedade em tempos de crise e que dão pistas para caminhos possíveis. A Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável publicou um Boletim especial, intitulado: Pandemia da Covid-19 e o Direito Humano à Alimentação Adequada e Saudável: Crise, Esperança e Ação (https://mailchi.mp/alimentacaosaudavel/lyghey46on?e=07e1237395 )reunindo uma pequena parcela das muitas ações, reflexões e recomendações que estão pipocando pelo país afora.  

Em suma, no meio do caos político, sanitário e econômico existem também milhares de iniciativas que devem ser louvadas e observadas de perto, pois trazem em seu âmago sementes de soluções coletivas e exemplos de resiliência que podem ajudar a construir alternativas mais saudáveis e sustentáveis para todos nós. Circuitos mais curtos e solidários aliados a modelos de produção e consumo de alimentos limpos, justos e bons para todos. 

Não se pode desprezar o sofrimento de milhões de pessoas em todo o mundo, seja por perder entes queridos, seja por perder seu sustento, seja por não dar conta de conviver com essa crise sem prazo pré-definido para acabar.

Crises

No entanto, a “normalidade” anterior à eclosão da epidemia é de um planeta em franco colapso, onde para manutenção do padrão de consumo nesses moldes precisamos de 1,75 planetas Terra. (https://www.footprintnetwork.org/our-work/ecological-footprint/ ou https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/07/29/sobrecarga-da-terra-2019-planeta-atinge-esgotamento-de-recursos-naturais-mais-cedo-em-toda-a-serie-historica.ghtml )

Os sistemas alimentares hegemônicos estão no centro dessa crise, a confluência das mudanças climáticas, subnutrição e obesidade, são pandemias que coexistem e foram descritas no relatório intitulado Sindemia Global (https://alimentacaosaudavel.org.br/sindemia-global-novo-relatorio-sobre-sistemas-alimentares-obesidade-desnutricao-e-mudancas-climaticas/4983/ ). 

Possibilidades e esperança

Vislumbrando soluções, as recomendações do relatório podem ser sintetizadas em vontade política para adotar medidas que possam contribuir para a regeneração de sistemas alimentares doentes, que hoje adoecem o planeta e as pessoas. Quem sabe a fermentação de mudanças sistêmicas não seja o lado bom da crise do coronavírus. 

Não gostaria de voltar à “normalidade” de outrora, portanto farei o que está ao meu alcance para alcançar um normal muito diferente do que é considerado normal até o momento. Acabaria com subsídios sem sentido, consideraria saúde e educação investimentos e não gastos, adotaria indicadores que respeitem os limites planetários, o bem estar das pessoas, o autocuidado e o cuidado com o outro. Teria compreendido o valor do tempo e pararia de correr freneticamente para lá e para cá sem tendo tempo de apreciar as pequenas coisas no momento presente. Temos o conhecimento necessário para construir um mundo mais colaborativo e justo para que possamos todos desfrutar da vida neste belo planeta. Vamos juntos?

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